Doença periodontal e Covid-19: o que há em comum?

Doença periodontal e Covid-19
Doença periodontal e Covid-19: Marco Bianchini alerta que estabelecer verdades universais sobre qualquer doença pode ser um erro escandaloso.

O ano de 2020 vai ficar marcado no tempo como aquele período em que todos nós viramos epidemiologistas. Devido à pandemia do coronavírus (Covid-19), o mundo direcionou os seus olhos para o entendimento de como uma doença atinge uma determinada população. Quem estuda a história natural da doença periodontal enfrenta este dilema há muitos anos, e vale a pena discutir aqui um pouco da epidemiologia desta doença, que continua bem presente nas diversas partes do mundo e modificando conceitos constantemente. Afinal, doença periodontal e Covid-19 têm algo em comum?

A estimativa da prevalência da periodontite depende dos conceitos de definição de caso, da população em estudo e do método de rastreamento da doença. E é exatamente nestes conceitos e métodos que podem residir os maiores erros epidemiológicos, uma vez que as autoridades dos órgãos de saúde, bem como os pesquisadores, podem divergir na definição de caso da doença e nos métodos de avaliação, além da própria população que deve ser avaliada. Um bom exemplo disso são os protocolos que usam dados parciais (avaliação somente de uma ou duas faces de cada dente) subestimando a prevalência de periodontite, enquanto índices mais abrangentes, que englobam praticamente todos os dentes, minimizam esta imprecisão e fornecem dados mais próximos da realidade.

Para termos um ideia, o órgão responsável pela pesquisa sobre exames de saúde e nutrição dos Estados Unidos (Health and Nutrition Examination Survey – NHANES) passou os últimos 25 anos divergindo sobre desenhos de estudos e as estimativas da correta prevalência da periodontite. O NHANES, entre 1988 e 1994, analisou a doença periodontal em dois pontos de cada dente totalmente irrompido, excluindo terceiros molares, em um quadrante superior e outro inferior, selecionados aleatoriamente. Os resultados demonstraram uma perda de inserção clínica ≥ 3 mm (classificada como periodontite) em 53,1% dos dentes avaliados. O mesmo tipo de análise se repetiu de 1999 a 2004, e os resultados foram de 43,6%. Já o mesmo NHANES, entre 2009 e 2012, examinou seis locais por dente, exceto os terceiros molares, e identificou perda de inserção clínica ≥ 3 mm em 37,4% de todos os dentes.

Quando avaliamos alguns dados da Europa, observamos mais dados diferentes. Uma pesquisa realizada em 2003 com indivíduos suecos de 20 a 80 anos descobriu que 28% apresentaram perda óssea menor que um terço ao redor da maioria dos dentes (periodontite leve). Outros 11% apresentaram perda óssea alveolar mais grave, 18% exibiram sangramento gengival intenso na sondagem, mas altura óssea normal, e 44% eram periodontalmente saudáveis, com sangramento mínimo na sondagem. Estudos na Alemanha mostraram periodontite (definida como a perda de inserção clínica ≥ 3 mm) em 95% dos adultos e em 99,2% dos idosos, e periodontite grave em uma faixa entre 16,9% e 48% de adultos e idosos, dependendo da definição de caso.

No Brasil, por se tratar de um país com dimensões continentais, os dados relativos à doença periodontal também oscilam bastante. Dados reportados por Susin e colaboradores nos anos de 2004 e 2005, coletados através do exame de todos os dentes do arco, na região metropolitana de Porto Alegre (RS), demonstram que 79% dos indivíduos exibiram perda de inserção ≥ 5 mm. Já em 2013, Vettore, Marques e Peres, utilizando dados de adultos na faixa etária de 35 a 44 anos de idade, relataram que a prevalência da doença periodontal em brasileiros adultos foi de 15,3% e 5,8% para a condição “grave”, com variações consideráveis entre os municípios.

Quando partimos para os dados mundiais, observamos resultados bastante interessantes e que nos levam a pensar se as nossas definições de caso e de doença estão realmente corretas. A prevalência média global de periodontite grave foi estimada em 11%, incluindo países com pouca ênfase nos cuidados de saúde periodontal. Para a surpresa de muitos, alguns países da África (tidos como menos desenvolvidos e com maior dificuldade de acesso a cuidados de saúde oral) mostraram semelhanças na profundidade das bolsas periodontais e perda de inserção clínica em comparação com países da Europa e América do Norte (com maior acesso aos cuidados de saúde oral), chegando a ter taxas superiores de manutenção de dentes em boca, quando comparados a países tidos como mais desenvolvidos.

O estudo da epidemiologia da doença periodontal nos traz conclusões interessantes que podem, de certa forma, ser extrapoladas para o momento atual da pandemia de coronavírus (Covid-19). A doença periodontal continua nos trazendo surpresas, tanto no estudo de casos como na maneira em que ela atinge as mais variadas camadas da população. Não é à toa que a classificação muda pelo menos a cada 20 anos e, assim, dogmas são frequentemente derrubados. Da mesma forma, a epidemiologia da Covid-19 ainda está sendo compreendida. Estabelecer verdades universais sobre a epidemiologia desta ou de qualquer outra doença, baseadas em modelos puramente matemáticos, é um erro escandaloso. É preciso urgentemente “vestir as sandálias da humildade” e abrir a mente para as mais diversas correntes de pensamento, a fim de entendermos melhor a história natural da Covid-19, da doença periodontal e de qualquer outra doença que, porventura, possa atingir a humanidade.

Referências

  1. Slots J. Periodontitis: facts, fallacies and the future. Periodontol 2000 2017;75(1):7-23.
  2. Susin C, Valle P, Oppermann R, Haugejorden O, Albandar J. Occurrence and risk indicators of increased probing depth in an adult Brazilian population. J Clin Periodontol 2005;32(2):123-9.
  3. Vettore MV, Marques RAA, Peres MA. Desigualdades sociais e doença periodontal no estudo SBBrasil 2010: abordagem multinível. Rev Saúde Pública 2013;47(suppl.3):29-39.

“Não multipliqueis palavras de altivez, nem saiam coisas arrogantes da vossa boca; porque o Senhor é o Deus de conhecimento, e por Ele são as nossas obras pesadas na balança.” (1 Samuel:2,3)

Marco BianchiniMarco Bianchini
Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros “O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia” e “Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares”.
Contato: bian07@yahoo.com.br | Facebook: bianchiniodontologia | Instagram: @bianchini_odontologia

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