Pneumonia associada à ventilação mecânica – PAV

PAV
Você sabe qual é o papel do cirurgião-dentista habilitado em Odontologia Hospitalar na redução da PAV? Marco Bianchini explica.

Nestas andanças que fazemos pelas redes sociais, encontrei um post muito interessante de uma colega, cirurgiã-dentista, que foi minha aluna na Universidade Federal de Santa Catarina. Trata-se da Dra. Mabel Diana Flores Rohr, que atualmente vem se especializando no atendimento odontológico em unidades de terapia intensiva (UTI). O assunto não poderia ser mais atual nestes tempos de Covid-19: é a pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV), uma infecção muito frequente e que pode ocorrer em pacientes que estão entubados na UTI.

Em uma abordagem mais simplificada, pode-se dizer que a PAV ocorre porque os pacientes estão inconscientes e aspiram o conteúdo da orofaringe para os pulmões.

E qual seria o papel do cirurgião-dentista habilitado em Odontologia Hospitalar na redução da PAV? Ele vai reduzir o número de microrganismos na cavidade oral através de um protocolo de higiene especial a cada paciente. Assim, ao aspirar, o conteúdo que chegará aos pulmões será menos patogênico e reduzirá o número de pneumonias associadas à ventilação.

 

E como esse cuidado pode auxiliar em tempos de coronavírus?

O maior problema da infecção viral pela Covid-19 é o colapso das redes hospitalares, que ocorre principalmente devido à grande quantidade de pacientes necessitando de ventiladores mecânicos e de toda a equipe profissional, além dos equipamentos de uma UTI. Com a redução da PAV, temos também a redução dos dias nas UTIs, dos dias em ventilação mecânica, da mortalidade e do uso de antibióticos. Assim, o quanto antes, o paciente volta a respirar sem a ajuda de aparelhos, e outro paciente com necessidade de internação terá um leito para sua recuperação.

A pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV) possui surgimento após 48 horas da entubação (desde o início da ventilação) ou até uma semana após a ventilação ser interrompida. Caracteriza-se como uma pneumonia desenvolvida em pacientes que receberam ventilação mecânica por mais de 48 horas e que não estava presente no momento da entubação. A patogênese da PAV envolve a aspiração de bactérias da orofaringe para o pulmão e o subsequente fracasso das defesas do hospedeiro em eliminar essas bactérias, o que resulta no desenvolvimento de infecção pulmonar.

Depois de 48 horas de hospitalização em UTI, ocorre uma mudança na composição da microbiota bucal para microrganismos associados à PAV. Dessa maneira, o biofilme dental poderia se tornar um importante reservatório para os principais potenciais patógenos respiratórios bacterianos causadores de PAV (Staphylococcus aureus, Pseudomonas aeruginosa, Acinetobacter espécies e espécies entéricas).

Neste sentido, o desenvolvimento de abordagens preventivas é essencial para reduzir a incidência dessa infecção, como por exemplo o uso da solução de clorexidina na higiene oral desses pacientes, ou ainda a remoção mecânica do biofilme dental que abriga os microrganismos associados à PAV. A redução do número de microrganismos que podem ser aspirados para as vias aéreas, seja pela remoção mecânica realizada pelo cirurgião-dentista ou pelo uso de agentes químicos como a clorexidina, parece ter um importante papel na prevenção da PAV.

Na verdade, acredito que a importância do cirurgião-dentista nestes casos de PAV vai além da UTI, principalmente se levarmos em consideração a necessidade de mantermos os pacientes saudáveis para que, em qualquer necessidade de tratamento da Covid-19, eles estejam sem uma quantidade excessiva de bactérias na boca ou com alguma infecção recorrente, como as doenças periodontais. Uma doença periodontal em forte atividade também pode, de certa forma, ser considerada uma comorbidade que venha a enfraquecer as defesas naturais do nosso organismo.

Imagine um paciente que está sem fazer os seus controles periodontais (controles de biofilme) há mais de seis meses e que contraiu a Covid-19. Suponhamos que, infelizmente, este paciente teve o seu quadro agravado e acabou necessitando do uso de ventiladores mecânicos. A quantidade de bactérias presentes na boca deste nosso paciente hipotético, certamente, será bem maior do que em um paciente que esteja mantendo as suas visitas ao cirurgião-dentista regularmente. Assim, a chance deste nosso paciente ter uma pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV) aumenta sensivelmente. Daí a importância do cirurgião-dentista não só dentro de uma UTI, mas também fazendo o seu atendimento eletivo regular, a fim de manter a saúde das pessoas e minimizar os riscos da Covid-19.

Referência:

Rohr MDF, da Silva FMP. Higiene oral com clorexidina na prevenção de pneumonia associada à ventilação mecânica em pacientes na unidade de terapia intensiva: revisão da literatura [trabalho de conclusão de curso]. Rio de Janeiro: Centro Multidisciplinar de Odontologia Intensiva (Cemoi). Casa de Saúde São José, 2019.

“E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá generosamente, sem impor condições, e esta ser-lhe-á dada. Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte.” (Tiago 1, 5-6)

Marco BianchiniMarco Bianchini
Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros “O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia” e “Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares”.
Contato: bian07@yahoo.com.br | Facebook: bianchiniodontologia | Instagram: @bianchini_odontologia

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