Alexandra Senegaglia: como funciona a imunoterapia celular CAR-T

Alexandra Senegaglia
Alexandra Senegaglia é coordenadora técnica do Núcleo de Tecnologia Celular da PUC-PR. (Imagem: arquivo pessoal)
Em entrevista, Alexandra Senegaglia analisa um assunto que é discutido diariamente por quem trabalha com o sistema imune.

Entre 28 de abril e 1º de maio de 2021, ocorrerá o XI Encontro da Associação Brasileira de terapia celular e gênica. Dentro desse congresso, teremos o primeiro simpósio sobre células-tronco e biomateriais na Odontologia. A programação científica do evento será diversificada, envolvendo temas atuais da terapia celular e gênica, com enfoque também nas normas legais de sua utilização. Devido à grave pandemia de Covid-19 que está afetando o mundo, o evento será realizado de forma on-line.

Nesta edição da coluna Quarta com Rossetti aqui no VMBlog, conversamos com a Dra. Alexandra Cristina Senegaglia, coordenadora de projetos e professora adjunta da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), onde também atua como coordenadora técnica do Núcleo de Tecnologia Celular.

Quarta com Rossetti – Este ano os olhos do mundo estão voltados para as vacinas. Mas este é um assunto diário para quem trabalha com o sistema imune. Por favor, explique como funciona a imunoterapia celular CAR-T.

Alexandra Senegaglia – A imunoterapia pode beneficiar pacientes com diversos tipos de câncer, pois melhora a capacidade do organismo de detectar e atacar as células cancerosas. As imunoterapias que estão aprovadas para uso ou que são utilizadas na pesquisa clínica para comprovar a segurança e eficácia no tratamento de diversos tipos de câncer são: a terapia com anticorpos monoclonais, a radioimunoterapia, as vacinas terapêuticas e a terapia de células T com receptores de antígenos quiméricos.

Os resultados iniciais da terapia de células T reprogramadas ou CAR-T cells/células T CAR têm sido animadores. A imunoterapia gênica com as células T CAR foi eleita pela Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) como o grande avanço no tratamento do câncer.

Na imunoterapia utilizando células T CAR, ocorre a manipulação/reprogramação de células imunes, para que reconheçam e ataquem as células tumorais. A utilização de células T CAR para o tratamento de pacientes com câncer possui efeitos antitumorais potentes e, quando injetadas nos pacientes com leucemia avançada, geram memória imunológica. Estas células T aumentam em número e atacam as células tumorais após serem reinfundidas nos pacientes.

As células T CAR são geradas a partir de células T autólogas ou alogênicas. O processo envolve primeiro a leucoaferese do paciente, depois, no laboratório, é realizado o enriquecimento de células T do sangue periférico, usando técnicas de isolamento magnético ou mecânico. Na sequência, as células são estimuladas em cultura usando microperolas acopladas a anticorpos, citocinas ou células apresentadoras de antígeno artificiais. Após o enriquecimento desta população celular específica, é realizada a introdução do transgene CAR nas células T. As células T são expandidas em cultura por vários dias ou semanas. Por fim, é realizada a reinfusão das células T CAR nos pacientes (geralmente após a quimioterapia linfoablativa), onde se espera que proliferem, dirijam-se ao sítio tumoral, reconheçam seus antígenos-alvo e liberem moléculas citotóxicas, resultando na morte do tumor com efeitos colaterais mínimos.

Quarta com Rossetti – O que nós já sabemos sobre os efeitos das células-tronco/edição gênica em pacientes com doenças autoimunes e o que já existe no sistema de saúde pública? Quais os riscos?

Alexandra Senegaglia – A edição gênica pode ser explicada como um conjunto de técnicas que podem ser utilizadas no tratamento e prevenção de doenças complexas, como o câncer, doenças genéticas ou autoimunes, modificando genes específicos. Essa manipulação do DNA das células afetadas pela doença pode ser realizada pela inserção ou pelo silenciamento de algum gene específico. A grande maioria dos estudos está em fase de testes, pois ainda são desconhecidas as consequências a longo prazo da técnica e da edição de genes.

No caso específico das doenças autoimunes graves, recorrer a técnicas de edição genética parece ser bastante promissor. Em curto prazo, a interação com o DNA serviria para avaliar se a doença autoimune vai se desenvolver ou para escolher o medicamento mais indicado. No futuro, as ferramentas de edição de genes podem ser usadas para interromper a inflamação em vários estágios e podem ter muitas vantagens sobre as abordagens tradicionais de terapia celular. Terapias gênicas, como a edição gênica, devem seguir todas as regulamentações da Anvisa para qualquer produto de terapia avançada, com início somente após a aprovação no CEP/Conep, registro do ensaio e do produto.

Quarta com Rossetti – Como educadora, quais as dificuldades e as estratégias para aumentar a importância/uso da terapia gênica na rotina dos médicos?

Alexandra Senegaglia – O uso das células T CAR é o exemplo mais promissor de terapia gênica já utilizada, até mesmo comercialmente nos Estados Unidos e na Europa. Mas a terapia gênica, na grande maioria dos casos, encontra-se em fase de pesquisa. Certamente, com o uso e aprovação em outros países e principalmente após aprovação de agências reguladoras como o FDA (Food and Drug Administration), EMA (Agência Europeia de Medicamentos) e a Anvisa no Brasil, estas novas tecnologias serão mais popularizadas. A divulgação dos resultados obtidos nestes ensaios clínicos e, principalmente, a instrução dos profissionais da área de saúde sobre os fundamentos desta técnica são os pontos-chave para que, quando disponíveis comercialmente, possam ser absorvidos na prática médica.

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