Esther Takamori: uso e descobertas recentes do PRF

Esther Takamori
Esther Takamori é mestra em Biologia Funcional e Molecular. (Imagem: arquivo pessoal)
Em entrevista, Esther Takamori discute os efeitos benéficos do uso do PRF na Odontologia, tanto em tecidos moles quanto em tecidos ósseos.

Entre 28 de abril e 1º de maio de 2021, ocorrerá o XI Encontro da Associação Brasileira de Terapia Celular e Gênica. Dentro desse congresso, teremos o primeiro simpósio sobre células-tronco e biomateriais na Odontologia. A programação científica do evento será diversificada, envolvendo temas atuais da terapia celular e gênica, com enfoque também nas normas legais de sua utilização. Devido à grave pandemia de Covid-19 que está afetando o mundo, o evento será realizado de forma on-line.

Nesta edição da coluna Quarta com Rossetti, aqui no VMBlog, conversamos com a Dra. Esther Rieko Takamori, graduada em Odontologia pela FOAr/Unesp, mestra em Biologia Funcional e Molecular pela Unicamp, e doutora em Odontologia (Estomatologia Biologia Oral) pela USP. Atualmente, é professora no Centro Universitário Arthur Sá Earp Neto (Unifase)/Faculdade de Medicina de Petrópolis (FMP), pesquisadora no Laboratório de Medicina Regenerativa (Unifase/FMP) e coordenadora-geral do Biobanco da Faculdade Arthur Sá Earp Neto (B-FASE), atuando nas áreas de medicina regenerativa, engenharia de tecidos, biomateriais, interação célula-material e desenvolvimento de novos produtos.

Quarta com Rossetti – Está sedimentado que o PRF tem efeitos benéficos sobre os tecidos moles. Mas, em relação ao tecido ósseo, como estão as pesquisas?

Esther Takamori – O PRF, seja pela matriz de fibrina formada, seja pela presença de fatores de crescimento, tem um papel importante na formação de novo tecido ósseo.

Os fatores presentes no PRF promovem a atração e migração de células indiferenciadas dos tecidos circunjacentes para o sítio cirúrgico em que foi inserido. Essas células recrutadas podem ser estimuladas, no seu nicho, a se diferenciarem em osteoblastos.

Embora ainda não haja um consenso quanto ao seu efeito no tecido ósseo, estudos clínicos e revisões sistemáticas mostram um papel importante do PRF na preservação óssea pós-extração dentária e no tratamento de perdas ósseas relacionadas à doença periodontal. Dependendo da extensão e localização do defeito ósseo, o PRF utilizado isoladamente pode não ser a melhor alternativa de tratamento. Entretanto, em vários estudos clínicos, ao se combinar o PRF com biomateriais, verifica-se maior formação de tecido ósseo em comparação ao grupo-controle, sem o seu uso.

Estudos in vitro com cultura de células têm mostrado ainda seu papel na modulação do processo inflamatório, assim como na inibição da osteoclastogênese, o que pode então pender a balança na direção da formação de tecido ósseo.

Quarta com Rossetti – Comparada ao colágeno, a fibrina seria o melhor carreador biológico para liberação lenta de substâncias na Odontologia regenerativa? Ou ainda tem muita água para rolar sobre esta ponte?

Esther Takamori – A fibrina atua como um carreador biológico natural de fatores de crescimento. Diante de uma lesão tecidual, a exposição do colágeno subendotelial atua na ativação das plaquetas, sendo posteriormente ancorados os fatores de crescimento na rede de fibrina, formada no processo de coagulação. O preparo do PRF para uso clínico nos dá a possibilidade de controlar e gerenciar esse processo. Após essa fase inicial de atuação da fibrina, células recrutadas estarão aptas a produzir o colágeno, cujo papel estrutural é de grande importância no processo de formação de um novo tecido. Dependendo do protocolo de preparação e do local em que o PRF foi implantando, podemos observar a liberação de fatores de crescimento por cerca de dez dias, o que permite uma ação prolongada desses fatores e amplia seus respectivos benefícios para a regeneração tecidual.

De fato, ainda são necessários mais estudos para se entender a preparação de um carreador de colágeno, ou mesmo de outro biomaterial, substâncias a serem adsorvidas e quais moléculas poderiam (ou deveriam) ser utilizadas para auxiliar nessa adsorção. Nesse caso, avaliações laboratoriais e estudos in vivo desenvolvidos em animais experimentais são necessários previamente aos estudos clínicos. Claro que também é fundamental considerar o sítio cirúrgico em si e qual seria a melhor estratégia de carreadores/liberação de fatores.

Acho que há ainda muita “água para rolar”, o que é bom, pois nos mostra a grande gama de “água” – isto é, possibilidades – que pode existir.

Quarta com Rossetti – Protocolos de centrifugação: até que ponto a constituição celular/dieta do paciente influencia no resultado final do PRF?

Esther Takamori – Condições sistêmicas, em que o paciente apresente grande alteração na sua composição sanguínea, podem interferir no número e qualidade de seus constituintes celulares. Isso pode influenciar na obtenção do PRF quanto ao número de plaquetas e leucócitos, consequentemente, na concentração de fatores e, posteriormente, nos resultados obtidos. Nessas situações, muito provavelmente, o próprio procedimento clínico em que seria utilizado o PRF não estaria recomendado. Deficiências nutricionais muito severas podem levar à alteração nos fatores produzidos, liberados pelas plaquetas ativadas, assim como podem alterar a resposta tecidual às biomoléculas.

Em um trabalho recente, verificou-se uma maior concentração de metais pesados em membranas de PRF de pacientes fumantes, em comparação com as de não fumantes. Entretanto, estudos ainda são necessários para compreender os efeitos biológicos dessa presença.

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