Pericoronarite: como tratá-la?

pericoronarite
Marco Bianchini identifica as causas da pericoronarite, assim como suas características e as melhores formas de tratar essa infecção.

A pericoronarite é uma infecção do capuz pericoronal, que pode ocorrer em qualquer idade e em qualquer elemento dental, já que está relacionada com a erupção de dentes decíduos ou permanentes. Porém, este tipo de lesão aguda do periodonto é mais comumente associada à erupção de terceiros molares mandibulares. A vulnerabilidade a essa condição é substancial no período entre 16 e 30 anos de idade, com incidência máxima entre 21 e 25 anos, durante o período mais comum de erupção do terceiro molar inferior.

A pericoronarite tem a sua etiologia ligada ao acúmulo de biofilme. Essa lesão pode acometer qualquer dente. Para isso, basta que o elemento dental se encontre parcialmente erupcionado ou em uma posição que dificulte a autolimpeza e a higiene pessoal propriamente dita. Entretanto, o acúmulo de biofilme e a dificuldade de higienização estão diretamente relacionados com a posição que o dente acometido pela pericoronarite tem na arcada dental. Esta posição dental pode levar a um maior acúmulo de biofilme pela dificuldade de higienização da área.

O que ocorre é que estas características são fortemente encontradas na região dos terceiros molares inferiores, o que leva a maioria dos autores a direcionar toda a descrição da etiologia e do tratamento da pericoronarite para esta área. A posição dos terceiros molares semierupcionados na mandíbula e sua anatomia com fissuras profundas oclusais favorecem o acúmulo de biofilme e de restos alimentares ao redor do dente. Isto ocorre porque, geralmente, os terceiros molares inferiores já se encontram no ramo ascendente mandibular, frequentemente inclinados para mesial e circundados por uma mucosa alveolar frouxa e não queratinizada.

Uma maneira interessante de se avaliar a possibilidade de um terceiro molar desenvolver uma pericoronarite é analisar a posição destes dentes no arco. Alguns autores observaram que os terceiros molares na posição vertical são aqueles com maior chance de apresentar pericoronarite. A posição horizontal diminui essa chance, enquanto as posições distal e mesioangular também podem apresentar pericoronarite, mas com uma incidência ligeiramente menor do que a vertical.

Provavelmente, isso se deve à face oclusal do terceiro molar, que apresenta sulcos e fissuras, em contato com o capuz pericoronário. Esses sulcos e fissuras favorecem o acúmulo de alimentos/biofilme sob o capuz pericoronário, causando inflamação e resultando em pericoronarite. Quando a posição do terceiro molar inferior é mesioangulada ou horizontal, a superfície distal desses dentes, que é uma superfície lisa e que não acumula tantos detritos, é a que está em contato com o capuz pericoronário. Portanto, o menor acúmulo de alimentos e a menor chance de inflamação do capuz pericoronário podem ser observados nas posições horizontal e mesioangular, quando comparados ao posicionamento vertical dos terceiros molares inferiores. Embora estes dados sejam interessantes, os casos devem ser sempre analisados individualmente.

O tratamento inicial (ou da fase aguda) da pericoronarite consiste no combate ao agente etiológico e à sintomatologia através de métodos não invasivos de remoção e controle do biofilme. Esta terapia geralmente consiste no debridamento do biofilme e na remoção de agentes estranhos encontrados sob o capuz que envolve a coroa do dente. Este debridamento nada mais é do que a raspagem do elemento dental envolvido, que pode ser executado manualmente, de preferência com as curetas Gracey, ou com raspadores sônicos e ultrassônicos. Também é necessária uma irrigação abundante do interior do capuz com antisséptico (clorexidina, soluções à base de oxigênio ou soro fisiológico). Após a ação local, o paciente deve manter a área limpa, executando uma boa limpeza mecânica (escova dental e fio dental), além do uso de soluções antissépticas para bochechos locais.

Somente após cessados os sinais e sintomas da inflamação aguda é que poderemos definir um plano de tratamento definitivo, que pode caminhar para uma cirurgia periodontal de cunha distal ou aumento de coroa clínica, ou até mesmo a extração do dente. Como a localização preferencial de uma pericoronarite é na região dos terceiros molares inferiores, onde geralmente os dentes se encontram mal posicionados e com dificuldade de erupção, na maioria das vezes o tratamento definitivo é a exodontia do dente em questão. As Figuras 1 e 2 ilustram um caso de pericoronarite que levanta dúvidas quanto ao tratamento definitivo.

Se não tratarmos a pericoronarite nas suas fases iniciais, esta pode se estender para planos faciais mais profundos, como os espaços laterais da faringe, resultando em um edema na região de glote, que provoca dificuldades de respiração. Este agravamento do quadro pode até mesmo evoluir para uma angina de Ludwig (que é uma infecção bacteriana aguda da boca e da garganta, produzindo um inchaço que pode bloquear as vias respiratórias, podendo se alastrar para áreas adjacentes do pescoço, maxilar e debaixo da língua). Situações extremas como estas podem requerer atendimentos hospitalares, levando o paciente a riscos de bacteremias e até mesmo ao óbito.

O uso de medicações (antibióticos, anti-inflamatórios e analgésicos) também deve ser observado, principalmente nos pacientes que apresentam um intenso envolvimento sistêmico. Entretanto, os problemas relacionados com os sinais e sintomas da pericoronite vão muito além da dor da cavidade oral, já que eles podem afetar a produtividade e a qualidade de vida do indivíduo. Infelizmente, o grupo populacional que sofre mais com este tipo de infecção são aqueles que apresentam as mais altas taxas de pobreza e menor escolaridade, resultando em um acesso limitado aos cuidados de saúde, o que faz com que uma pericoronarite leve se transforme em uma urgência odontológica muito grave.

Referências

  1. Galvão EL, da Silveira EM, de Oliveira ES, da Cruz TMM, Flecha OD, Falci SGM et al. Association between mandibular third molar position and the occurrence of pericoronitis: a systematic review and meta-analysis. Arch Oral Biol 2019;107:104486 (DOI:10.1016/j.archoralbio.2019.104486). Epub 2019 Jul 25.
  2. Wehr C, Cruz G, Young S, Fakhouri WD. An insight into acute pericoronitis and the need for an evidence-based standard of care. Dent J (Basel) 2019;7(3):88.

“Naquele dia se entoará este cântico na terra de Judá: temos uma cidade forte, a que Deus pôs a salvação por muros e antemuros. Abri as portas, para que entre nelas a nação justa, que observa a verdade. Tu conservarás em paz aquele cuja mente está firme em ti, porque ele confia em ti. Confiai no SENHOR perpetuamente, porque o SENHOR DEUS é uma rocha eterna.” (Isaías 26:1-4)

Marco BianchiniMarco Bianchini
Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros “O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia” e “Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares”.
Contato: bian07@yahoo.com.br | Facebook: bianchiniodontologia | Instagram: @bianchini_odontologia