Qual é a “zona do agrião” na Implantodontia?

zona do agrião na Implantodontia
Marco Bianchini destaca a criação do termo “zona do agrião” e analisa as regiões que merecem uma atenção especial na Implantodontia.

A expressão “zona do agrião” é uma gíria do futebol, inventada pelo saudoso jornalista João Saldanha, no final da década de 1960. A expressão está relacionada ao cultivo do agrião, já que a hortaliça precisa ser plantada em um espaço com grande quantidade de água. Por isso, as pessoas devem se mover com precaução. No futebol, João Saldanha chamava as proximidades do gol como a “zona do agrião”, uma vez que naquele lugar de disputas ferrenhas a grama não nasce. Só o agrião, por ser uma planta resistente, seria capaz de crescer nas imediações da pequena área de um campo de futebol.

Na Implantodontia, a “zona do agrião” pode ser considerada a região de transição da parte do implante que fica dentro do osso para a parte do conjunto implante/prótese, que fica supraóssea, e já entra em contato com os tecidos moles. Nesta região, onde geralmente estão conectados os pilares protéticos, não costuma nascer osso e nem gengiva. É uma região extremamente sensível e molhada, onde nada parece brotar, a não ser bactérias.

Pode-se dizer que o dente natural também possui uma “zona do agrião. Trata-se da área de transição mais estreita entre a raiz e a coroa, que se denomina colo do dente. Nesta área, temos um marco anatômico chamado de junção cemento-esmalte. Toda esta região de constrição entre a raiz e a coroa acaba por abrigar estruturas biológicas de tecidos moles que compõem o espaço biológico (epitélio juncional e inserção conjuntiva). Esta área é livre de osso, a fim de acomodar estas estruturas de tecidos moles que irão promover o selamento biológico da porção radicular do dente que se encontra intraóssea.

Nos implantes dentários, essa relação da parte supraóssea com a parte intraóssea do conjunto cilindro e pilar protético também ocorre. Contudo, os primeiros desenhos de implantes não mimetizavam a área de colo dos dentes naturais. A região de transição da porção intraóssea do implante para o pilar protético possuía as mesmas dimensões do implante que estava dentro do osso. Além disso, a área de junção do pilar como o implante, muitas vezes, encontrava-se no nível ósseo ou até mesmo abaixo dele. Estes formatos anatômicos dos implantes levaram ao aparecimento de perdas ósseas indesejáveis, junto a parte coronária do implante, a qual conhecemos como saucerização. A figura 1 ilustra um caso de saucerização.

zona do agrião na Implantodontia
Figura 1 – Implante tipo hexágono externo sem constrição na área de transição entre o cilindro e o pilar (a “zona do agrião” da Implantodontia). Observar a intensa perda óssea peri-implantar caracterizando uma saucerização.

 

Os implantes de plataforma switching (ou cone-morse) transferiram a acomodação dos componentes dos tecidos moles para os pilares protéticos. Através de uma união mais “justa” do pilar no cilindro intraósseo, criou-se uma área de transição mais estreita do cilindro para a parte protética, onde o pilar tem uma espessura menor do que o implante intraósseo, acomodando bem o epitélio juncional e a inserção conjuntiva. Contudo, mesmo que a união entre o pilar e o implante intraósseo seja bastante “íntima” (através de uma angulação tipo cone-morse), sempre haverá ainda uma linha de união entre estes dois componentes. As figuras 2 e 3 demonstram um caso com implante cone-morse.

zona do agrião na Implantodontia
Figuras 2 e 3 – Radiografias periapical e interproximal de um conjunto implante + pilar + coroa (implante cone-morse Due Cone e Pilar Smart – Implacil De Bortoli – São Paulo Brasil). Observar a constrição com diferença de diâmetros do cilindro para o pilar protético e a intensa formação óssea sobre a cabeça do implante, junto ao pilar protético, na “zona do agrião na Implantodontia”.

 

Depois das descobertas de P-I Branemark, as pesquisas se voltaram para o aprimoramento do tratamento das superfícies dos implantes, a fim de melhorar a osseointegração e torná-la mais rápida. Contudo, a confirmação epidemiológica das doenças peri-implantares fez a comunidade científica se voltar para a adoção de medidas que viessem a prevenir o aparecimento precoce tanto da mucosite como da peri-implantite. Dentre as diversas medidas, uma delas foi o desenvolvimento de formatos de implantes e de pilares protéticos que promovessem o vedamento biológico na área de transição entre o implante e a prótese.

Observa-se, atualmente, que muitos estudos clínicos e laboratoriais estão sendo realizados para reforçar ainda mais a ideia de incorporação da constrição da área de transição do osso para a gengiva já no corpo do implante que está dentro do osso. Estes trabalhos estão focados diretamente na “zona do agrião” na Implantodontia, a fim de que a mesma não seja mais um reservatório de microrganismos, que irão levar a perdas ósseas indesejáveis, mas sim uma região de selamento biológico, que irá proteger o cilindro intraósseo de destruições ósseas e gengivais indesejáveis.

“Um vapor, porém, subia da terra, e regava toda a face da terra. E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente. E plantou o Senhor Deus um jardim no Éden, do lado oriental; e pôs ali o homem que tinha formado.” (Gênesis 2:6-8)

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