Quem faz prótese fica de cabelo branco: mito ou verdade?

Paulo Rossetti traz explicação médico-científica para a ação do estresse, componente presente no dia a dia dos protesistas.

Estresse. Sim, no pós-pandemia, é fundamental discutir isso. Melhor, todo dia. Porque nós, os profissionais de Saúde, lutamos contra este inimigo, muitas vezes, silencioso. O título desta coluna é uma velha máxima. Mas será que tem fundamento?

Cabe aqui uma explicação médico-científica para nos situarmos melhor:

  1. Adrenais são glândulas que ficam sobre os rins. Cada uma pesa quatro gramas e possui, a grosso modo, duas partes: um córtex e uma medula. O córtex, que é o que nos interessa aqui, produz hormônios, em especial, o cortisol e a dexametasona (esta última alivia a respiração dos pacientes em estágio inicial de Covid-19 e é 30 vezes mais potente do que o cortisol). No ser humano, o cortisol está classicamente associado ao estresse.
  2. O hipotálamo é uma região do cérebro. Em qualquer situação de estresse (físico ou psicológico), os estímulos são conduzidos e atingirão rapidamente o hipotálamo. Lá, haverá a liberação do hormônio adrenocorticotrófico (ACTH), que mandará uma mensagem ao córtex da adrenal para – adivinhem – liberar o cortisol.
  3. Além disso, alguns tipos de estresse que aumentam a liberação de cortisol são: a) trauma, infecção, calor ou frio intensos, doença debilitante, cirurgia e imobilização (incapacidade de se mexer).

Dos fatores acima, compreendemos que a liberação de cortisol teria efeito protetor no organismo. Mas, como tudo na vida, tem suas consequências:

  1. Aumento da concentração de glicose no sangue (isto não é bom e, ao mesmo tempo, a insulina liberada não consegue dar conta totalmente desta glicose).
  2. Grandes quantidades de cortisol geram musculatura fraca (ele “tira” os aminoácidos) e reduzem à imunidade.
  3. A secreção excessiva de cortisol gera obesidade.

E, voltando ao ponto da “imobilização”, não sei por que, mas lembro de uma certa figura de vestimenta branca, com máscara e escudo facial (nem sempre leves), fazendo preparos, colocando implantes, tentando entender os desejos do paciente, da secretária, dos seus filhos e filhas, entre quatro paredes. Parece um “experimento controlado”? Haja cortisol…

Mas, e o cabelo branco? Voltando à glândula adrenal, ela também tem uma medula. Nesses 20%, em resposta ao sistema nervoso simpático, são produzidas substâncias (epinefrina e norepinefrina). Um estudo recente (https://www.nature.com/articles/s41586-020-1935-3.) mostrou que, em resposta ao estresse agudo (ele novamente), o sistema nervoso simpático fica hiperativo e diminui as células-tronco responsáveis pela pigmentação nos cabelos.

Parece que não é só o protesista que fica de cabelo branco. Vamos nos cuidar melhor.

Paulo Rossetti
Paulo Rossetti

Editor científico de Implantodontia da ImplantNews.
Orcid: 0000-0002-0868-6022.