Existe saúde peri-implantar mesmo com perda óssea?

saúde peri-implantar
Em sua coluna, Marco Bianchini debate aspectos importantes da saúde peri‐implantar, como perda óssea, inflamação e sangramento.

A saúde peri‐implantar é caracterizada pela ausência de sinais visuais de inflamação e de sangramento à sondagem, bem como de perda óssea progressiva (perda constante ao longo dos anos), visível em radiografias. Os sinais visuais de uma mucosa peri-implantar sadia demonstram um tecido mole com ausência de eritema, de sangramento espontâneo ou sangramento à sondagem e de edema na mucosa. A coloração dessa mucosa é um vermelho rosado com tonalidades mais claras, semelhante aos tecidos moles saudáveis que se encontram ao redor dos dentes naturais.

Os métodos clínicos para identificar se um implante está com saúde ou já possui algum grau de inflamação incluem a inspeção visual, sondagem com sonda milimetrada periodontal e palpação. Mudanças na coloração desses tecidos moles, bem como o sangramento à sondagem ou a presença de um forte exsudato na palpação, indicam que o quadro de saúde foi rompido. Vale lembrar que a sondagem de implantes difere sensivelmente da sondagem em dentes naturais e, assim, exige um treinamento e calibração do clínico para que não sejam obtidos diagnósticos falso positivos ou falso negativos.

A saúde peri-implantar pode existir, tanto em torno de implantes com suporte ósseo normal quanto em implantes com suporte ósseo reduzido, ou seja, implantes que já sofreram algum tipo de perda óssea. Nesses casos, essa perda óssea teria ocorrido durante um certo período de tempo e, depois, foi paralisada por algum tratamento ou cessou espontaneamente pela própria reação de defesa do hospedeiro.

A estabilidade óssea marginal é um forte indicativo de que um implante está com saúde. Implantes que não apresentam perdas ósseas demonstram estar perfeitamente adaptados ao meio bucal e tendem a se comportar bem no longo prazo. Dentro deste contexto, a perda óssea progressiva (perda constante ao longo dos anos) é aquela considerada mais lesiva e indicativa de ausência de saúde peri-implantar. As Figuras 1 a 3 demonstram um caso com perda óssea progressiva e sinais clínicos de inflamação, confirmando o diagnóstico de peri-implantite.

Para diagnosticar se um implante está com perda óssea progressiva, torna-se necessário ter exames radiográficos nos diversos momentos da vida deste implante, a fim de se comparar estas radiografias quanto à perda óssea ao longo dos anos. Desta forma, existem três momentos críticos em que é preciso tomar radiografias para armazenar os dados da situação óssea peri implantar. São eles:

Momento 1: logo após a cirurgia de colocação do implante;

Momento 2: antes da reabertura (cirurgia de segundo estágio), após o período de osseointegração;

Momento 3: logo após a instalação da prótese.

Estas radiografias, tomadas nestes três momentos iniciais da vida de um implante osseointegrado, irão constituir-se no marco zero (baseline) do implante em sua posição intraóssea original. É a partir destas imagens radiográficas iniciais que conseguiremos diagnosticar se está ocorrendo algum tipo de perda óssea patológica, pois iremos compará-las com as futuras avaliações e controles ao longo dos anos subsequentes, em que o implante estará exercendo a sua função no meio intraoral.

Portanto, o clínico deve compreender que, idealmente, um implante com saúde não deve apresentar nenhuma perda óssea. Porém, assim como ocorre nos dentes naturais, um implante também pode sofrer algumas remodelações e modificações no seu osso peri-implantar ao longo dos anos de uso e, mesmo assim, manter-se com saúde. Cabe ao clínico observar se estas perdas ósseas estão ocorrendo de maneira progressiva e contínua, associadas aos sinais clínicos de inflamação, pois isto irá requerer algum tipo de tratamento para interromper este processo destrutivo.

Referências:

  1. Schwarz F, Derks J, Monje A, Wang HL. Peri‐implantitis. J Clin Periodontol 2018;45(suppl.20):246-66.
  2. Araujo MG, Lindhe J. Peri‐implant health. J Clin Periodontol 2018;45(suppl.20):36.
  3. Heitz‐Mayfield LJA, Salvi GE. Peri‐implant mucositis. J Clin Periodontol 2018;45(suppl.20):237-45.
  4. Berglundh T et al. Peri‐implant diseases and conditions: consensus report of workgroup 4 of the 2017 World Workshop on the Classification of Periodontal and Peri‐Implant Diseases and Conditions. J Clin Periodontol 2018;45(suppl.20):286-91.
  5. Dalago HR, Schuldt Filho G, Rodrigues MA, Renvert S, Bianchini MA. Risk indicators for peri-implantitis. A cross-sectional study with 916 implants. Clin Oral Implants Res 2017;28(2):144-50.

“E o Senhor lhes deu repouso de todos os lados, conforme a tudo quanto jurara a seus pais; e nenhum de todos os seus inimigos pôde resisti-los; todos os seus inimigos o Senhor entregou-lhes nas mãos. Palavra alguma falhou de todas as boas coisas que o Senhor falou à casa de Israel; tudo se cumpriu.” (Josué 20,44-45)

Autor Marco Aurélio BianchiniMarco Bianchini
Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros “O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia” e “Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares”.
Contato: bian07@yahoo.com.br | Facebook: bianchiniodontologia | Instagram: @bianchini_odontologia